Sense and Sensibility Brasil-Portugal – parte II

Retomo a leitura comparada de Razão e sentimento e Sensibilidade e bom sensoSense and Sensibilityno capítulo 23 no qual Elinor pondera sobre os fatos que levaram Lucy Steel a revelar seu relacionamento com Edward Ferrars. Ela chega a conclusão que este tivera uma paixoneta |PT|, ou como dizemos no Brasil, uma paixonite por Lucy. Na tradução brasileira esse termo está como “arroubos juvenis”.

As irmãs Dashwood estão prestes a partir para Londres e Elinor está ansiosa para finalmente desvendar o caráter de Willoughby e neste ponto a tradução portuguesa me parece que excluiu o conhecimento de terceiros (grifos meus):

|26[...] and Elinor was resolved not only upon gaining every new light as to his character which her own observation or the intelligence of others could give her, [...]
|PT| [...] e Elinor estava decidida não apenas a adquirir nova luz sobre os seu caráter, mais através da sua própria observação do que através da dos outros, [...]
|BR| e Elinor estava decidida não apenas a fazer nova avaliação de seu caráter, através da sua própria análise ou do conhecimento de outros [...]

Assim que chegaram a Londres, Elinor desconfiou que a carta que Marianne escrevera era para Willoughby, não só pela letra W que ela vislumbrou, mas também por ter dado sido enviada para two-penny post (dois centavos) uma agência postal para correspondências dentro da própria cidade. Esta informação, apesar não ser essencial pois já sabemos da letra W, não consta na tradução brasileira.

|26| [...] and no sooner was it complete than Marianne, ringing the bell, requested the footman who answered it to get that letter conveyed for her to the two-penny post. This decided the matter at once.
|PT| logo que o completou, Marianne, tocando a campanhia, pediu ao criado que a atendeu para enviar aquela carta para o correio, com um selo de dois pennys… Isto clarificou imediatamente o assunto.
|BR| Mal acabou de escrever, Marianne tocou a campanhia, pedindo ao criado que veio atender que a [carta] levasse imediatamente ao correio. Isso definiu perfeitamente o assunto.

Marianne não podia ver um bilhete sequer chegando na casa de Mrs. Jennings que pensava que era para ela, e uma de suas observações dá o tom de atrevimento a que havia chegado nossa romântica heroína. Gostei das duas traduções.

|27But Marianne, not convinced, took it instantly up.
“It is indeed for Mrs. Jennings; how provoking!”
|PT| Mas Marianne não se convenceu e pegou nele imediatamente.
— É na verdade para Mrs. Jennings. Que ultrajante!
|BR| Sem se convencer disso, Marianne tomou-o, rápida.
— É mesmo para a sra. Jennings! Quem diria!

Ainda no capítulo 27 o Coronel Brandon fala do envolvimento de Marianne com Willoughby usando a palavra engagement. As traduções foram “namoro” |PT| e “noivado” |BR|. Mais adiante, no capítulo 29, Marianne usa o mesmo termo e a tradução fica “namoro” |PT| e “compromisso” |BR|. Todos os termos são corretos mas prefiro compromisso que me remeta melhora para a época de Jane Austen onde um simples namoro já era considerado um compromisso, e sério. A minha dúvida fica por conta do peso e significado da palavra “namoro” em Portugal, tanto na época como atualmente.

Nesta leitura descobri as window-seats, “assentos de janela |PT| ou “conversadeiras” |BR| e gostei particularmente do nome dado no Brasil para tais cadeiras. Fico a imaginar tempo as mulheres ficavam na janela conversando, e talvez namorando,  naquela época. A imagem ao lado é de uma conversadeira do período da Regência, c. 1820.

Quando a senhora Jennings descobre que Willoughby está noivo de outra moça roga-lhe uma praga bastante severa, que na minha opinião, ficou branda na tradução portuguesa.

|30| [...] and I wish with all my soul his wife may plague his heart out.
|PT| [...] e desejo sinceramente que a sua mulher lhe desfaça a paciência.
|BR| [...] e desejo do fundo de minha alma que sua mulher lhe faça da vida um inferno.

A diálogo de Elinor com o Coronel Brandon sobre a descoberta do envolvimento de Willoughby com a protegida do Coronel o e posterior encontro deles para um acerto de contas já narrei neste post: “O duelo de Razão e sentimento”, onde comparei as traduções de Ivo Barroso e Dinah Silveira de Queiroz. A diferença é a mesma nesta leitura comparada: a palavra duelo é mencionada apenas por Ivo Barroso.

|31| Have you,” she continued, after a short silence, “ever seen Mr. Willoughby since you left him at Barton?”
“Yes,” he replied gravely, “once I have. One meeting was unavoidable.”
Elinor, startled by his manner, looked at him anxiously, saying,
“What? have you met him to–”
“I could meet him no other way. Eliza had confessed to me, though most reluctantly, the name of her lover; and when he returned to town, which was within a fortnight after myself, we met by appointment, he to defend, I to punish his conduct. We returned unwounded, and the meeting, therefore, never got abroad.”
Elinor sighed over the fancied necessity of this; but to a man and a soldier she presumed not to censure it.
|PT| Viu — depois de um curto silêncio, continuou — mais uma vez Mr. Willoughby desde que deixou Barton?
— Sim, vi — replicou gravemente — uma vez. Um encontro era inevitável.
Elinor, espantada pelos seus modos, olhou-o ansiosamente, dizendo:
— O quê? Encontrou-o para…
—  Não podia encontrá-lo para outro fim. Eliza confessou-me com muita relutância o nome do seu amante; e quando ele regressou para a cidade, o que aconteceu quinze dias depois da minha vinda, marcámos um encontro, para ele se defender e para eu provar a sua conduta. Separámo-nos sem ressentimentos e portanto o encontro nunca se espalhou.
|BR| [...] O senhor voltou a ver — perguntou ela a Brandon, após um breve silêncio — o sr. Willoughby, depois que deixou Barton?
— Voltei — replicou o coronel gravemente. — Uma única vez. Um encontro era inevitável.
— Como? Bateram-se em duelo?
— Não havia outra solução. Elisa, embora com relutância, confessou-me o nome de seu amante; e quando ele regressou a Londres, uns quisnze dias depois de eu próprio aqui chegar, marcamos um encontro, ele para defender sua conduta, e eu para castigá-la. Terminamos sem que nenhum saísse ferido, e o duelo nunca chegou a ter repercussão.
Elinor suspirou e duvidou da necessidade daquilo; mas a um homem e soldado presumiu que nada devia censurar.

No capítulo 30, Mrs. Jennings tenta curar os males de amor da Marianne com the finest old Constantia wine, ou  o “melhor vinho velho de Constantia” |PT| ou ainda o “excelente vinho de Constância” |BR| que hoje tem um similar da mesma região chamado Vin de Constance sobre o qual fiz um artigo: “O bom e velho Constância”.

  • Abreviações usadas nos textos:|1| Capítulo do livro |PT| Tradução portuguesa |BR| Tradução brasileira

PROGRAMAÇÃO

Capítulos 1 a 23 

Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – I”
“A idade de Marianne Dashwood”

Lendo Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – I”
O tradutor visto por uma leiga

Capítulos 23 a 36 

Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – II
O duelo de Razão e sentimento
O bom e velho Constância

Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (1)
Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (2)
Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (3)

Capítulos 37 a 50 

“Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – II”
“Lendo Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – III”


Entrevista: L&PM

Entre­vista (na ínte­gra) con­ce­dida a Carolina Marquis para editora L&PM: “Uma conversa com Raquel Sallaberry, dona do maior blog sobre Jane Austen no Brasil”.

~~·~~

ENTREVISTA

Raquel Sallaberry é apaixonada por livros. Sua vida gira em torno deles. É diagramadora, restauradora e leitora voraz, como não poderia deixar de ser. O encanto que sente é ainda maior quando o assunto é Jane Austen, a escritora inglesa que viveu entre 1775 e 1817.

Raquel, quando começou a procurar informações sobre a escritora, surpreendeu-se com o pouco que encontrou sobre ela. Querendo reverter a situação, pôs-se a trabalhar e hoje é dona do Jane Austen em Português, um blog através do qual se comunica com amantes da autora de Orgulho e Preconceito no mundo inteiro.

Veja a entrevista que Raquel concedeu à L&PM Editores.

 


L&PM Editores – Qual foi o primeiro livro de Jane Austen que você leu?
Raquel Sallaberry - LiOrgulho e preconceito” quando jovem. A obra completa, e aqui me refiro aos seis livros principais, só li muito tempo depois.

L&PM – Qual foi o impacto que o livro lhe causou?
Raquel - Lembro de ter tomado o partido de Mr. Darcy desde as primeiras linhas e ter dado boas risadas com Mr. Collins e Mr. Bennet. Meu humor começou a mudar a partir dessa leitura. Percebi que chatos e rabugentos podem ser muito divertidos.

L&PM – O que, na sua opinião, faz com que os livros e histórias de Jane Austen sejam universais?
Raquel - A sofisticação de sua escrita – simplicidade, perspicácia e humor – é o que torna suas histórias universais e atemporais, pois os costumes mudam, mas os sentimentos continuam os mesmos.

L&PM – Qual é o seu livro preferido da Jane Austen?
Raquel - Gosto de todos os livros de Jane Austen e quando preciso escolher fico dividida entre “Orgulho e preconceito” e “Persuasão”. Mas não posso deixar de mencionar alguns personagens queridos de outros livros: os sacripantas irmãos Mary e Henry Crawford de Mansfield Park; o corretíssimo Mr. Knightley de Emma; o rapaz mais divertido das redondezas, Henry Tilney d’A Abadia de Northanger e a discreta Elinor Dashwood  de “Razão e sentimento”.

L&PM – O que você acha das traduções brasileiras?
Raquel - Tem traduções ótimas e outras lamentáveis. Não nomearei as primeiras para não cometer injustiças e as últimas para não dar publicidade.

L&PM – A BBC de Londres fez em 2003 uma pesquisa que consagrou Orgulho e preconceito como sendo o livro mais amado pelos leitores do Reino Unido. O que há, afinal, de tão apaixonante nesta história?
Raquel - Há tanta coisa! Mr. Darcy, o herói rude, mas correto – não esquecendo naturalmente de Pemberley e sua bela renda anual. Elizabeth Bennet, a heroína inteligente e respeitadora das normas, mas que não se cala – imaginem a delícia de falar a verdade para uma arrogante como Lady Catherine de Bourgh. A fina ironia de Mr. Bennet, que muitos dizem ser a personificação de Jane Austen. Mr. Collins, a criatura mais obsequiosa que conheço – dono absoluto do meu bom humor. A nervosíssima senhora Bennet – tentem imaginá-la hoje, com as filhas na balada…
Muito mais haveria para falar sobre o livro que Jane considerava seu “filho amado”, mas vou guardar um pouco do assunto para 2013 quando ele completará duzentos anos de publicação.

L&PM – Para os fãs de um autor, é sempre motivo de angústia assistir a um filme cuja história é baseada no livro. O que você acha dos filmes baseados nas obra de Jane Austen?
Raquel - As séries lançadas pela BBC são muito boas. Entre elas destaco Orgulho e preconceito de 1995, com Colin Firth e Jennifer Ehle, um sucesso até hoje. As versões de Mansfield Park servem muito bem para ilustrar os tipos de filmes. A versão de 1999, de Patricia Rozema com o título Palácio das ilusões (no Brasil) é muito bonita mas a heroína, Fanny Price, e alguns personagens são quase o oposto do original. Em 2007 teve uma nova versão da ITV , também sofrível em termos de roteiro e interpretações. Apesar de antiga e mais teatral a versão de 1986 da BBC é a  melhor até hoje. Há também versões não muito fiéis, mas engraçadas como Northanger Abbey 1986 ePersuasion 1971 (ambas da BBC). A grande maioria se não me encanta, me diverte.

L&PM – Como surgiu a ideia de fazer o blog Jane Austen?
Raquel - Tudo começou quando procurei na internet por traduções de Jane Austen e percebi que pouco ou quase nada havia de relevante sobre o tema. Quando descobri que o domínio “janeausten.com.br” estava disponível resolvi então fazer o blog. Já havia feito outros blogs sobre leituras, livros e tipografia e imaginei que seria do mesmo estilo. Isto até dar-me conta do número de visitas e do interesse dos leitores, quando passei a publicar com mais frequência.

L&PM – Como é a sua relação com os fãs de Jane Austen no Brasil e em outros países? Um blog é realmente uma janela para o mundo?
Raquel - Já perdi a conta do número de pessoas com as quais conversei e dei risadas lendo seus comentários. Com exceção de um ou dois stalkers, me considero privilegiada com meus leitores e leitoras, todos educados e sobretudo bem-humorados. Eu diria que o blog é uma porta para o mundo. Eu mesma escrevo, há quase um ano, como blogueira-convidada no blog da americana Vic Sanborn. Não nos conhecemos pessoalmente, mas a admiração por Jane Austen, uma língua em comum e a Web, possibilitaram o conhecimento mútuo e minha participação semanal no Jane Austen Today.

L&PM – De que forma a Jane Austen está em seu dia-a-dia?
Raquel - Como não tenho horários rígidos para trabalhar posso dizer que Jane Austen perpassa todos os meus dias. As leituras, as traduções, os filmes, a preparação do blog e por fim a correspondência com os leitores são entremeados pelos meus afazeres.

L&PM – Se você pudesse fazer uma pergunta para Jane Austen, qual seria?
Raquel - “Você me concederia uma entrevista?”

L&PM – A L&PM está em processo de lançar as obras completas de  Jane Austen em formato pocket. O que você acha disso?
Raquel - Eu acho ótimo, pois o processo teve início no Jane Austen em Português!

A Coleção L&PM POCKET lançará Persuasão, de Jane Austen, em abril de 2011.