Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – parte III

Editorial

No capítulo 37 que abre o terceiro tomo, levando em consideração a publicação original de Sense and Sensibility, temos Mrs. Jennings contando como “casualmente” soube do namoro secreto de Lucy Steel e Edward Ferrars. E com sua falta de sensibilidade ela diz para Elinor:

There’s for you, my dear!

Veja lá, minha querida!… |PT|

Veja só, minha querida!… |BR|

Não há nada de errado ou estranho com as traduções da exclamação acima. O único detalhe é aquela tradução que faço no  automático quando leio o original e imagino que vocês também o façam.

Nessa exclamação, por exemplo, traduzi mentalmente, “Tenho algo para você, minha querida!” e logo em seguida imaginei mais coloquial ainda: “Esta é para você, minha querida!”.

Após a descoberta do namoro de Edward e Lucy, Elinor conta a verdade para Marianne, mas não quer magoá-la com a realidade ou mesmo sugerir que a irmã se comportasse como ela própria.

She was very far from wishing to dwell on her own feelings, or to represent herself as suffering much, any otherwise than as the self-comand she had practised since her first knowledge of Edward´s engagement might suggest a hint of what was practicable to Marianne.

Não queria acreditar nos seus próprios sentimentos nem mostrar-se muito magoada, como se o controlo que praticara desde que tivera conhecimento no namoro de Edward pudesse sugerir a Marianne a sua praticabilidade. |PT|

Estava longe de querer repisar seus próprios sentimentos, ou de apresentar-se muito sofredora, nem permitiria que o auto-domínio praticado desde que tivera conhecimento do compromisso de Edward pudesse insinuar a Marianne o que ela teria podido fazer. |BR|

Nesta frase tenho duas dúvidas. A primeira é sobre a tradução portuguesa de “She was very far from wishing to dwell on her own feelings”, como “Não queria acreditar nos seus próprios sentimentos” que para mim não fez sentido para mim. Será só uma questão de interpretação de minha parte?

A segunda é o trecho “a hint of what was practicable to Marianne” apesar das diferentes traduções ambas mostram como Marianne deveria proceder: como a prática Elinor. Neste ponto minha dúvida é sobre qual momento Marianne teria que ter sido prática e controlada. Quando soube sobre o noivado de Willoughby ou no presente momento ao saber de Lucy e Edward?

Agora um exemplo das diferenças das traduções, a portuguesa concisa e a brasileira mais explicativa. Talvez por costume, prefiro a segunda.

Marianne’s feelings had then broken in, and put an end to all regularity of detail;

Os sentimentos de Marianne não aguentaram mais e cortou todos os pormenores. |PT|

Os sentimentos de Marianne não haviam aguentado, cortando a regularidade da narrativa; |BR|

Marianne comportou-se admiravelmente bem depois de passado o primeiro impacto da novidades sobre Lucy e Edward e Elinor por sua vez fica contente ao perceber seu comportamento mais comedido. Neste caso a tradução portuguesa me pareceu mais próximo do meu entendimento do original.

Such advances towards heroism in her sister made Elinor feel equal to any thing herself.

Tais passos de sua irmã em direcção ao heroísmo, fizeram que Elinor a sentisse igual a si própria. |PT|

Tais conquistas heróicas de sua irmã fizeram com que Elinor se tornasse mais forte do que nunca. |BR|

No capítulo 38 Lucy Steel já havia assegurado o casamento com Edward Ferrars, mas como sempre, precisa mandar recados para Elinor. Para esse fim usa a irmã, Nancy, que supostamente teria escutado atrás da porta as conversas do casal e para justificar tal ato conta que Lucy também era adepta de tal prática e já havia escutado conversas entre e ela e a amiga Martha Sharpe.

[...] she never made any bones of hiding in a closet, or behind a chimney-board, on purpose to hear what we said.

[...] ela não se importou de se esconder num armário ou atrás da chaminé para ouvir o que dizíamos. |PT|

[...] ela não se incomodou de esconder-se num armário ou atrás da lareira para ouvir o que dizíamos! |BR|

Fiquei intrigada para saber como Lucy se esconderia atrás de uma chaminé, mesmo sendo de uma lareira como está na tradução brasileira. Encontrei a resposta no original que traz uma nota de rodapé identificando chimney-board como uma tela colocada em frente à lareira durante os meses de verão. O que equivale dizer que os leitores de língua inglesa, pelo menos para os americanos (a edição que estou usando é da Barnes and Noble), o termo chimney-board também é desconhecido. Só lamento não ter  encontrado uma imagem dessa peça.

Elinor, no capítulo 40, depois da ofertar em nome do Coronel Brandon a paróquia de Delaford para Edward, especula se os rendimentos oferecidos pelo Coronel, e considerados por este último como muito poucos para um casal, seriam suficientes para Lucy e Edward. A senhora Jennings depois de falar sobre as condições da casa paroquial completa muito sabiamente:

The colonel is a ninny, my dear; because he has two thousand a year himself, he thinks that nobody else can marry on less.

O coronel é um palerma, minha querida. Porque tem duas mil libras por ano, pensa que mais ninguém se pode casar com menos. |PT|

O coronel é um anjo, minha querida; porque tem rendimento de duas mil libras anuais, acha que ninguém consegue casar-se com menos do que isso. |BR|

Os significados que encontrei para a palavra ninny foram: pateta, tolo e bobo. Mas concordo com ambos tradutores, o Coronel Brandon é um anjo palerma!

Na segunda visita de Mr. Harris, o farmacêutico, no capítulo 43, ficou desapontado pois Marianne não havia melhorado com suas medicações:

His medicines had failed; the fever was unabated; and Marianne only more quiet — not more herself — remained in a heavy stupor.

Os seus remédios tinha falhado… a febre não diminuíra; e Marianne apenas mais calada — menos ela própria –, continuava numa forte apatia. |PT|

Os remédios não fizeram efeito; a febre persistia; e Marianne apenas um pouco mais calma — já não mais ela — permanecia num pesado estupor. |BR|

No primeiro momento que li “menos ela própria”, na tradução portuguesa, me pareceu uma contradição ao “Marianne apenas mais calada” e pensei que se referia a outra pessoa.

Tudo ficou claro quando a segunda tradução “já não mais ela”. Mais um exemplo do estranhamento, creio eu, quando leio o português de Portugal.

 

Willoughby visita Cleveland quando sabe que Marianne está muito mal e tenta se redimir contando para Elinor detalhes de sua vida. Elinor, relutante quer se livrar o mais rápido possível dele e fica de pé e pede que ele seja rápido e menos violento.

Ele então quase ordena:

Sit down, and I will be both.

Sente-se, e sê-lo-ei. |PT|

Permita-me sentar, que farei o possível. |BR|

Aqui temos uma escolha na tradução: a ordem direta em inglês “sit down” é traduzida literalmente na portuguesa, já a brasileira permitiu-se a uma elegância por parte de Willoughby.

Os cavalheiros costumavam sentar-se somente depois das damas e no momento que Willoughby pede permissão, fica evidente que ele espera que Elinor sente-se primeiro.

Assumindo sua culpa Willoughby fala da carta, ditada por sua noiva na época, Miss Grey,

My business was to declare myself a scoundrel; and whether I did it with a bow or a bluster was of little importance.

Competia declarar-me um patife, se o fazia com uma vénia ou com uma bofetada, isso não tinha importância… |PT|

Competia-me declarar-me um patife e pouca diferença havia se o fizesse com uma vênia ou com um insulto. |BR|

Fiquei assustada com a violência das palavras da tradução portuguesa ou será minha parcialidade com Willougby?

Uma bofetada, mesmo sendo perfeitamente cabível, me pareceu pesada nos lábios do patife arrependido. Um insulto ficou mais suave e me pareceu mais indicado. Fui então para o original, “bluster” e encontrei vários significados: tumulto, barulho, com estrépito, jactância, violência e como verbo, vociferar. De fato uma bofetada é uma forma de violência.

Quando as Dashwood recebem a notícia que o senhor Ferrars havia se casado, pelo o criado da casa, no capítulo 48, temos a descrição das reações de Marianne e Elinor.

Marianne gave a violent start, fixed her eyes upon Elinor, saw her turning pale, and fell back in her chair in hysterics.

Marianne endireitou-se abruptamente, fixou os seu olhos em Elinor, viu-a tornar-se pálida e caiu da sua cadeira, histérica. |PT|

Marianne estremeceu violentamente, fixou os olhos em Elinor, viu que sua face empalidecia, reclinava-se na cadeira como se tivesse se sentindo mal. |BR|

Esta frase me deixou confusa e para explicar melhor vou traduzir o que entendi diretamente do original:

Marianne logo que ouviu a notícia e viu Elinor empalidecendo teve imediatamente uma reação violenta, jogou-se para trás na cadeira sob forte emoção.

Não creio que Marianne tivesse literalmente caído da cadeira. No final da frase a palavra “hysterics” está mais para uma reação emocional muito forte do que um ataque histérico no estilo Fanny Dashwood.

A parte final da frase, apesar de me parecer que se refere a Marianne e não a Elinor, como na tradução brasileira, pode ser qualquer uma das irmãs, pois apenas o pronome (her) deixa o sentido vago. Some-se a isso o fato da senhora Dashwood, no parágrafo seguinte, não sabe qual filha confortar primeiro, pois ambas estão muito abaladas.

A senhora Jennings, no capítulo 49, escreve para Elinor contando sobre o casamento de Lucy Steel com Robert Ferrars e de como ela não suspeitava de nada mesmo tendo conversado com a própria Lucy um dia antes do casamento. A tradução portuguesa optou por omitir um pequeno trecho da carta que, na minha opinião, acrescenta mais um dado no caráter de Lucy, além de não ter consideração com a própria irmã: a vaidade de parecer o que não é.

Not a soul suspected any thing of the matter, not even Nancy, who, poor soul! Came crying to me the day after, in a great fright for fear Mrs. Ferrars, as well as not knowing how to get to Plymouth; for Lucy, it seems, borrowed all her money before she went off to be married, on purpose, we suppose, to make a show with, and poor Nancy had not seven shillings in the world; […]

Ninguém suspeitava do assunto, nem mesmo Nancy, que, pobrezinha!, veio ter comigo a chorar, no dia seguinte, com um enorme receio de Mrs. Ferrars, e também sem saber como iria para Plymouth, pois parece que Lucy lhe pedira todo o seu dinheiro emprestado antes de partir para casar e a pobre Nancy nem sequer tinha uma moeda com ela… |PT|

Ninguém suspeitava absolutamente de nada, nem mesmo Nancy, pobrezinha!, que veio ter comigo a chorar no dia seguinte, a morrer de medo da reação da sra. Ferrars, e sem saber como ir a Plymouth, pois Lucy ao que parece lhe pediu todo dinheiro emprestado antes de casar-se, com o fim evidente de fazer figura, e a pobre Nancy ficou sem nada. |BR|

Notei também que ambos tradutores preferiram não mencionar a expressão “not seven shillings in the world”. Procurei por essa expressão e também não achei, se alguém souber, por favor, nos conte!

Edward, no último capítulo (50), mesmo tendo sido admitido na casa de sua mãe depois de tantas reviravoltas, está temeroso em anunciar seu noivado com Elinor. Apesar da ironia da expressão inicial “being allowed once more to live” acredito que a tradução portuguesa de “his constitution” por “sua integridade física” ficou um tanto exagerada para uma possível represália, mesmo por parte da desalmada senhora Ferrars!

In spite of his being allowed once more to live, however, he [Edward] did not feel the continuance of his existence secure till he had revealed his present engagement; for the publication of that circumstance, he feared, might give a sudden turn to his constitution, and carry him off as rapidly as before.

Contudo, apesar de lhe ser permitido viver mais uma vez, ele não sentia segura a continuação da sua existência até que tivesse revelado o seu actual noivado; receava que o conhecimento dessa circunstância pudesse modificar rapidamente a sua integridade física, fazendo-o desaparecer tão rapidamente como antes. |PT|

Contudo, apesar de lhe ter sido permitido viver outra vez, Edward não sentia segura a continuidade de sua existência enquanto não revelasse à mãe o seu atual noivado; pois a divulgação dessa ocorrência, conforme receava, podia implicar uma reviravolta da situação, provocando um novo afastamento. |BR|

No antepenúltimo parágrafo de Razão e sentimento onde ficamos sabendo de um sentimento de Willhoughby que o acompanhou para sempre, em relação à Marianne, descobri dois detalhes.

Sempre li as traduções do primeiro negrito (abaixo) como sendo de Marianne a rudeza ou a indelicadeza (modo ironia ligado) em sobreviver ao perder Willoughby. Somente agora ao ler o original percebi que a falta de civilidade em sobreviver fora de Willoughby ao perder Marianne! Ah! Os benditos pronomes…

A segunda questão também está na minha leitura das traduções. Lendo o original e a tradução de Ivo Barroso – o segundo negrito – entendo perfeitamente que Willoughby não podia ver uma mulher bonita que de imediato já pensava em Marianne e a considerava sempre a mais bonita dentre todas.

Mas ao ler a tradução portuguesa fiquei cismando que mais do que olhar e comparar Marianne com outras mulheres, o nosso patife mais simpático continuava um namorador, isso sim!

For Marianne, however, in spite of his incivility in surviving her loss, he always retained that decided regard which interested him in every thing that befell her, and made her his secret standard of perfection in woman: and many a rising beauty would be slighted by him in after-days as bearing no comparison with Mrs. Brandon.

Contudo, por Marianne – apesar de sua rudeza em sobreviver à sua perda – conservou sempre aquela afeição decidida, que o interessava por tudo o que lhe acontecia e fazia dela seu modelo secreto de perfeição feminina… e, muitas vezes, quando lhe aparecia uma rapariga bonita, ela era negligenciada dentro de alguns dias, por não ter qualquer comparação com Mrs. Brandon. |PT|

Por Marianne, entretanto – apesar de sua indelicadeza em sobreviver à sua perda –, conservou sempre aquela afeição marcante que o fazia interessar-se por tudo que lhe dizia respeito, tornando-a seu modelo secreto de perfeição feminina… e muitas beldades futuras haveria de olhar com desdém quando as comparava com a sra. Brandon. |BR|

E com o lindo sorriso de Hattie Morahan, a Elinor Dashwood de 1988, termino a leitura comparada das traduções brasileira e portuguesa de Razão e sentimento e Sensibilidade e bom senso, traduzidas respectivamente por Ivo Barroso e Maria Luísa Ferreira da Costa.

Muitíssimo obrigada, Catia Pereira! E já fica aqui o convite para o bicentenário de Orgulho e preconceito!

Abaixo todos os links da leitura comprara e textos anexos.

  • Abreviações usadas nos textos:|1| Capítulo do livro |PT| Tradução portuguesa |BR| Tradução brasileira

PROGRAMAÇÃO

Capítulos 1 a 23 

Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – I”
“A idade de Marianne Dashwood”

Lendo Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – I”
O tradutor visto por uma leiga

Capítulos 23 a 36 

Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – II
O duelo de Razão e sentimento
O bom e velho Constância

Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (1)
Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (2)
Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (3)

Capítulos 37 a 50 

“Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – III”
Huswife ou estojo de costura no tempo de Jane Austen
Gatos melancólicos, sonolentos e entediados
Willoughby, viúvo

“Lendo Sense and Sensibility em Portugal 200  anos depois- Parte III”

Huswife ou estojo de costura no tempo de Jane Austen

Na leitura comparada que fiz das traduções portuguesa e brasileira de Sense and Sensibility* me deparei com muitos nomes específicos sem um equivalente na língua portuguesa. Um deles foi huswifes, no capítulo 38.

As irmãs Steel depois da descoberto o compromisso, ou namoro se vocês assim preferirem, entre Lucy Steel e Edward Ferrars foram praticamente expulsas da casa de John Dashwood. Tola e quase infantil, apesar de mais velha do que a irmã Lucy, Nancy Steel no final só se preocupava com o fato de ter que devolver os presentes que ganharam de Fanny Dashwood.

And for my part, I was all in a fright for fear your sister should ask us for the huswifes she had gave us a day or two before; but however, nothing was said about them, and I took care to keep mine out of the sight.

Quanto a mim, receava que a sua cunhada nos pedisse os livros de agulhas que nos dera uns dias antes; mas no entanto nada nos disse a respeito disso, procurei manter o meu escondido. |PT|

De minha parte, estava muito receosa de que sua cunhada nos pedisse de volta os estojos de agulhas que ela nos dera um ou dois dias antes; mas, na verdade, nada se disse sobre isto, e eu tive o cuidado de manter o meu bem escondido. |BR|

A leitura comparada foi entre as traduções e só recorria ao original quando não conseguia entender alguma coisa. Foi o que aconteceu neste caso com os termos “livros de agulhas” e “estojos de agulhas”. Qualquer um deles caberia perfeitamente como presente para moças. Mas afinal eram livros ou estojos? Recorri então ao original** onde estava a palavra “huswifes”, que por sua vez eu não conhecia também.

Não encontrei a palavra nos meus dicionários e passei para a internet, e uma das definições que encontrei para a palavra é “um pequeno estojo para carregar material de costura”.

Mas um estojo pode ser de tecido, de madeira ou de couro. Na busca por imagens encontrei o site de Jennifer Forest, autora dos livros Behind Jane Austen’s Door e Jane Austen Sewing Box. Lá estava a foto do estojo abaixo do modelo que hoje usamos para carregar agulhas, linhas, tesoura de modo compacto, principalmente para viagens, feito de tecido.

Nesse momento foi quando me lembrei de minha antiga cestinha de costura! Feita de palha e madeira.

Esta cesta deve ser dos anos 1930/1940 pois foi usada por uma tia quando aluna interna em um colégio de freiras e que por sua vez havia ganhado de outra moça. Está bastante combalida, sem o fecho de metal, o forro interno e também sem a almofada em cetim rosa que ficava na parte interna da tampa e onde pregávamos os agulhas e alfinetes.

ATUALIZAÇÃO

Preparando um post similar para o Jane Austen Today encontrei uma lindíssima huswife, do fim do século 18 início do 19, em couro carmesin no museu Fine Arts of Boston.

* Razão e sentimento, tradução brasileira de Ivo Barroso e Sensibilidade e Bom Senso, tradução portuguesa de Maria Luísa Ferreira da Costa.
**  Edição da Barnes and Noble.

 

Sense and Sensibility Brasil-Portugal – parte II

Retomo a leitura comparada de Razão e sentimento e Sensibilidade e bom sensoSense and Sensibility – no capítulo 23 no qual Elinor pondera sobre os fatos que levaram Lucy Steel a revelar seu relacionamento com Edward Ferrars. Ela chega a conclusão que este tivera uma paixoneta |PT|, ou como dizemos no Brasil, uma paixonite por Lucy. Na tradução brasileira esse termo está como “arroubos juvenis”.

As irmãs Dashwood estão prestes a partir para Londres e Elinor está ansiosa para finalmente desvendar o caráter de Willoughby e neste ponto a tradução portuguesa me parece que excluiu o conhecimento de terceiros (grifos meus):

|26[...] and Elinor was resolved not only upon gaining every new light as to his character which her own observation or the intelligence of others could give her, [...]
|PT| [...] e Elinor estava decidida não apenas a adquirir nova luz sobre os seu caráter, mais através da sua própria observação do que através da dos outros, [...]
|BR| e Elinor estava decidida não apenas a fazer nova avaliação de seu caráter, através da sua própria análise ou do conhecimento de outros [...]

Assim que chegaram a Londres, Elinor desconfiou que a carta que Marianne escrevera era para Willoughby, não só pela letra W que ela vislumbrou, mas também por ter dado sido enviada para two-penny post (dois centavos) uma agência postal para correspondências dentro da própria cidade. Esta informação, apesar não ser essencial pois já sabemos da letra W, não consta na tradução brasileira.

|26| [...] and no sooner was it complete than Marianne, ringing the bell, requested the footman who answered it to get that letter conveyed for her to the two-penny post. This decided the matter at once.
|PT| logo que o completou, Marianne, tocando a campanhia, pediu ao criado que a atendeu para enviar aquela carta para o correio, com um selo de dois pennys… Isto clarificou imediatamente o assunto.
|BR| Mal acabou de escrever, Marianne tocou a campanhia, pedindo ao criado que veio atender que a [carta] levasse imediatamente ao correio. Isso definiu perfeitamente o assunto.

Marianne não podia ver um bilhete sequer chegando na casa de Mrs. Jennings que pensava que era para ela, e uma de suas observações dá o tom de atrevimento a que havia chegado nossa romântica heroína. Gostei das duas traduções.

|27But Marianne, not convinced, took it instantly up.
“It is indeed for Mrs. Jennings; how provoking!”
|PT| Mas Marianne não se convenceu e pegou nele imediatamente.
— É na verdade para Mrs. Jennings. Que ultrajante!
|BR| Sem se convencer disso, Marianne tomou-o, rápida.
— É mesmo para a sra. Jennings! Quem diria!

Ainda no capítulo 27 o Coronel Brandon fala do envolvimento de Marianne com Willoughby usando a palavra engagement. As traduções foram “namoro” |PT| e “noivado” |BR|. Mais adiante, no capítulo 29, Marianne usa o mesmo termo e a tradução fica “namoro” |PT| e “compromisso” |BR|. Todos os termos são corretos mas prefiro compromisso que me remeta melhora para a época de Jane Austen onde um simples namoro já era considerado um compromisso, e sério. A minha dúvida fica por conta do peso e significado da palavra “namoro” em Portugal, tanto na época como atualmente.

Nesta leitura descobri as window-seats, “assentos de janela |PT| ou “conversadeiras” |BR| e gostei particularmente do nome dado no Brasil para tais cadeiras. Fico a imaginar tempo as mulheres ficavam na janela conversando, e talvez namorando,  naquela época. A imagem ao lado é de uma conversadeira do período da Regência, c. 1820.

Quando a senhora Jennings descobre que Willoughby está noivo de outra moça roga-lhe uma praga bastante severa, que na minha opinião, ficou branda na tradução portuguesa.

|30| [...] and I wish with all my soul his wife may plague his heart out.
|PT| [...] e desejo sinceramente que a sua mulher lhe desfaça a paciência.
|BR| [...] e desejo do fundo de minha alma que sua mulher lhe faça da vida um inferno.

A diálogo de Elinor com o Coronel Brandon sobre a descoberta do envolvimento de Willoughby com a protegida do Coronel o e posterior encontro deles para um acerto de contas já narrei neste post: “O duelo de Razão e sentimento”, onde comparei as traduções de Ivo Barroso e Dinah Silveira de Queiroz. A diferença é a mesma nesta leitura comparada: a palavra duelo é mencionada apenas por Ivo Barroso.

|31| Have you,” she continued, after a short silence, “ever seen Mr. Willoughby since you left him at Barton?”
“Yes,” he replied gravely, “once I have. One meeting was unavoidable.”
Elinor, startled by his manner, looked at him anxiously, saying,
“What? have you met him to–”
“I could meet him no other way. Eliza had confessed to me, though most reluctantly, the name of her lover; and when he returned to town, which was within a fortnight after myself, we met by appointment, he to defend, I to punish his conduct. We returned unwounded, and the meeting, therefore, never got abroad.”
Elinor sighed over the fancied necessity of this; but to a man and a soldier she presumed not to censure it.
|PT| Viu — depois de um curto silêncio, continuou — mais uma vez Mr. Willoughby desde que deixou Barton?
— Sim, vi — replicou gravemente — uma vez. Um encontro era inevitável.
Elinor, espantada pelos seus modos, olhou-o ansiosamente, dizendo:
— O quê? Encontrou-o para…
—  Não podia encontrá-lo para outro fim. Eliza confessou-me com muita relutância o nome do seu amante; e quando ele regressou para a cidade, o que aconteceu quinze dias depois da minha vinda, marcámos um encontro, para ele se defender e para eu provar a sua conduta. Separámo-nos sem ressentimentos e portanto o encontro nunca se espalhou.
|BR| [...] O senhor voltou a ver — perguntou ela a Brandon, após um breve silêncio — o sr. Willoughby, depois que deixou Barton?
— Voltei — replicou o coronel gravemente. — Uma única vez. Um encontro era inevitável.
— Como? Bateram-se em duelo?
— Não havia outra solução. Elisa, embora com relutância, confessou-me o nome de seu amante; e quando ele regressou a Londres, uns quisnze dias depois de eu próprio aqui chegar, marcamos um encontro, ele para defender sua conduta, e eu para castigá-la. Terminamos sem que nenhum saísse ferido, e o duelo nunca chegou a ter repercussão.
Elinor suspirou e duvidou da necessidade daquilo; mas a um homem e soldado presumiu que nada devia censurar.

No capítulo 30, Mrs. Jennings tenta curar os males de amor da Marianne com the finest old Constantia wine, ou  o “melhor vinho velho de Constantia” |PT| ou ainda o “excelente vinho de Constância” |BR| que hoje tem um similar da mesma região chamado Vin de Constance sobre o qual fiz um artigo: “O bom e velho Constância”.

  • Abreviações usadas nos textos:|1| Capítulo do livro |PT| Tradução portuguesa |BR| Tradução brasileira

PROGRAMAÇÃO

Capítulos 1 a 23 

Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – I”
“A idade de Marianne Dashwood”

Lendo Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – I”
O tradutor visto por uma leiga

Capítulos 23 a 36 

Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – II
O duelo de Razão e sentimento
O bom e velho Constância

Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (1)
Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (2)
Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (3)

Capítulos 37 a 50 

“Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – II”
“Lendo Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – III”

Entrevista: L&PM

Entre­vista (na ínte­gra) con­ce­dida a Carolina Marquis para editora L&PM: “Uma conversa com Raquel Sallaberry, dona do maior blog sobre Jane Austen no Brasil”.

~~·~~

ENTREVISTA

Raquel Sallaberry é apaixonada por livros. Sua vida gira em torno deles. É diagramadora, restauradora e leitora voraz, como não poderia deixar de ser. O encanto que sente é ainda maior quando o assunto é Jane Austen, a escritora inglesa que viveu entre 1775 e 1817.

Raquel, quando começou a procurar informações sobre a escritora, surpreendeu-se com o pouco que encontrou sobre ela. Querendo reverter a situação, pôs-se a trabalhar e hoje é dona do Jane Austen em Português, um blog através do qual se comunica com amantes da autora de Orgulho e Preconceito no mundo inteiro.

Veja a entrevista que Raquel concedeu à L&PM Editores.

 


L&PM Editores – Qual foi o primeiro livro de Jane Austen que você leu?
Raquel Sallaberry - LiOrgulho e preconceito” quando jovem. A obra completa, e aqui me refiro aos seis livros principais, só li muito tempo depois.

L&PM – Qual foi o impacto que o livro lhe causou?
Raquel - Lembro de ter tomado o partido de Mr. Darcy desde as primeiras linhas e ter dado boas risadas com Mr. Collins e Mr. Bennet. Meu humor começou a mudar a partir dessa leitura. Percebi que chatos e rabugentos podem ser muito divertidos.

L&PM – O que, na sua opinião, faz com que os livros e histórias de Jane Austen sejam universais?
Raquel - A sofisticação de sua escrita – simplicidade, perspicácia e humor – é o que torna suas histórias universais e atemporais, pois os costumes mudam, mas os sentimentos continuam os mesmos.

L&PM – Qual é o seu livro preferido da Jane Austen?
Raquel - Gosto de todos os livros de Jane Austen e quando preciso escolher fico dividida entre “Orgulho e preconceito” e “Persuasão”. Mas não posso deixar de mencionar alguns personagens queridos de outros livros: os sacripantas irmãos Mary e Henry Crawford de Mansfield Park; o corretíssimo Mr. Knightley de Emma; o rapaz mais divertido das redondezas, Henry Tilney d’A Abadia de Northanger e a discreta Elinor Dashwood  de “Razão e sentimento”.

L&PM – O que você acha das traduções brasileiras?
Raquel - Tem traduções ótimas e outras lamentáveis. Não nomearei as primeiras para não cometer injustiças e as últimas para não dar publicidade.

L&PM – A BBC de Londres fez em 2003 uma pesquisa que consagrou Orgulho e preconceito como sendo o livro mais amado pelos leitores do Reino Unido. O que há, afinal, de tão apaixonante nesta história?
Raquel - Há tanta coisa! Mr. Darcy, o herói rude, mas correto – não esquecendo naturalmente de Pemberley e sua bela renda anual. Elizabeth Bennet, a heroína inteligente e respeitadora das normas, mas que não se cala – imaginem a delícia de falar a verdade para uma arrogante como Lady Catherine de Bourgh. A fina ironia de Mr. Bennet, que muitos dizem ser a personificação de Jane Austen. Mr. Collins, a criatura mais obsequiosa que conheço – dono absoluto do meu bom humor. A nervosíssima senhora Bennet – tentem imaginá-la hoje, com as filhas na balada…
Muito mais haveria para falar sobre o livro que Jane considerava seu “filho amado”, mas vou guardar um pouco do assunto para 2013 quando ele completará duzentos anos de publicação.

L&PM – Para os fãs de um autor, é sempre motivo de angústia assistir a um filme cuja história é baseada no livro. O que você acha dos filmes baseados nas obra de Jane Austen?
Raquel - As séries lançadas pela BBC são muito boas. Entre elas destaco Orgulho e preconceito de 1995, com Colin Firth e Jennifer Ehle, um sucesso até hoje. As versões de Mansfield Park servem muito bem para ilustrar os tipos de filmes. A versão de 1999, de Patricia Rozema com o título Palácio das ilusões (no Brasil) é muito bonita mas a heroína, Fanny Price, e alguns personagens são quase o oposto do original. Em 2007 teve uma nova versão da ITV , também sofrível em termos de roteiro e interpretações. Apesar de antiga e mais teatral a versão de 1986 da BBC é a  melhor até hoje. Há também versões não muito fiéis, mas engraçadas como Northanger Abbey 1986 ePersuasion 1971 (ambas da BBC). A grande maioria se não me encanta, me diverte.

L&PM – Como surgiu a ideia de fazer o blog Jane Austen?
Raquel - Tudo começou quando procurei na internet por traduções de Jane Austen e percebi que pouco ou quase nada havia de relevante sobre o tema. Quando descobri que o domínio “janeausten.com.br” estava disponível resolvi então fazer o blog. Já havia feito outros blogs sobre leituras, livros e tipografia e imaginei que seria do mesmo estilo. Isto até dar-me conta do número de visitas e do interesse dos leitores, quando passei a publicar com mais frequência.

L&PM – Como é a sua relação com os fãs de Jane Austen no Brasil e em outros países? Um blog é realmente uma janela para o mundo?
Raquel - Já perdi a conta do número de pessoas com as quais conversei e dei risadas lendo seus comentários. Com exceção de um ou dois stalkers, me considero privilegiada com meus leitores e leitoras, todos educados e sobretudo bem-humorados. Eu diria que o blog é uma porta para o mundo. Eu mesma escrevo, há quase um ano, como blogueira-convidada no blog da americana Vic Sanborn. Não nos conhecemos pessoalmente, mas a admiração por Jane Austen, uma língua em comum e a Web, possibilitaram o conhecimento mútuo e minha participação semanal no Jane Austen Today.

L&PM – De que forma a Jane Austen está em seu dia-a-dia?
Raquel - Como não tenho horários rígidos para trabalhar posso dizer que Jane Austen perpassa todos os meus dias. As leituras, as traduções, os filmes, a preparação do blog e por fim a correspondência com os leitores são entremeados pelos meus afazeres.

L&PM – Se você pudesse fazer uma pergunta para Jane Austen, qual seria?
Raquel - “Você me concederia uma entrevista?”

L&PM – A L&PM está em processo de lançar as obras completas de  Jane Austen em formato pocket. O que você acha disso?
Raquel - Eu acho ótimo, pois o processo teve início no Jane Austen em Português!

A Coleção L&PM POCKET lançará Persuasão, de Jane Austen, em abril de 2011.

 

Você e Sense and Sensibility – sorteio

Convidei alguns leitores do Jane Austen em Português para escrever sobre Razão e sentimento ou Razão e sensibilidade em comemoração do bicentenário de Sense and Sensibility. Como é impossível convidar cada leitor para escrever um post e eu gostaria muito de saber a opinião de vocês sobre o livro ou o filme (ou a minissérie) então pensei que seria uma boa idéia este sorteio, pois vocês poderão ler um pouco sobre o livro nos artigos deste blog.

Como participar do sorteio

Escreva um comentário neste post – pode ser grande mas terá que ser apenas um – dando sua opinião sobre o livro e/ou o filme/minissérie até do dia 30 de maio. Não será esco­lhida uma melhor res­posta mas gerado um número aleatório, como sempre faço.

PS: Se você não leu o livro ou não viu o filme, não tem problema, basta um comentário dizendo olá, que concorrerá igualmente.

O resultado será divulgado no dia 31. O prêmio ainda está sendo escolhido… surpresa é sempre melhor, não é mesmo?

Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – parte I

Cátia, do Jane Austen Portugal eu, do Jane Austen Português, estamos lendo (sem comentarmos entre nós, de modo a não nos influenciarmos mutuamente) duas traduções, uma portuguesa e outra brasileira, de Sense and Sensibility. A leitura, que está sendo um aprendizado maravilhoso, é para comemorar o bicentenário da publicação de Sense and Sensibility, o primeiro livro publicado de Jane Austen.

Eu optei por uma breve introdução com as primeiras impressões, seguida das diferenças e/ou discrepâncias e dúvidas que encontrei na leitura até o capítulo 22. Na última parte – esta leitura será relatada em três partes –, tendo lido toda a obra nas duas traduções, darei minha opinião de leitora amadora de Jane Austen, pois esta não é uma leitura comparada acadêmica.

As traduções que estamos usando na leitura são: Sensibilidade e Bom Senso, edição Europa-América na tradução de Maria Luísa Ferreira da Costa e Razão e sentimento, edição Nova Fronteira na tradução de Ivo Barroso. O original para pesquisa, no meu caso, é a edição da Barnes and Noble.

Dentre as diferenças básicas que notei na leitura destes primeiros capítulos, uma delas foi o uso das abreviaturas de tratamento. A edição portuguesa manteve as abreviaturas em inglês: Mrs. e Mr. A brasileira optou por traduzir por “sra.” e “sr.”.

Outro detalhe foi  a tradução literal dos parentescos na edição portuguesa. Aqui cabe uma explicação. Quando uma moça ou rapaz se casavam passavam a ser considerados filhos das respectivas familias e eram mencionados como tal nos livros de Jane Austen (exemplo abaixo). O tradutor brasileiro optou por descrever o parentesco como usamos no Brasil, (Sobre essas designações e tratamentos leiam a entrevista de Ivo Barroso). Restou desta leitura uma pergunta: em Portugal, atualmente, usa-se essa forma de referir-se às noras e genros, como filhos e filhas?

|01|In the society of his nephew and his niece, and their children, the old gentleman´s days were confortably spent.
|PT| Os dias do velho senhor passaram-se agradavelmente na companhia do seu sobrinho, sobrinha e respectivas filhas.
|BR| Em companhia do sobrinho, sua mulher e os filhos do casal, o velho solteirão teve conforto no seu fim de vida.

A minha primeira estranheza foi na segunda frase do livro onde não entendi o uso da palavra mesmo (grifo meu). Será uma maneira portuguesa de escrever?

|01| Their state was large, and their residence was at Norland Park, in the centre of their property [...]
|PT| A sua propriedade era grande e mesmo no centro situava-se Norland Park, a sua residência [...]
|BR| Suas terras eram extensas e a mansão de Norland Park ficava no meio da propriedade [...]

A descrição de Margaret Dashwood na edição portuguesa, na minha interpretação, indica que a menina não teria possibilidade de igualar-se as irmãs no futuro; e na brasileira, que apenas não igualava-se no presente momento, pela diferença de idade em relação às irmãs. E finalmente, no original, também não consegui me decidir com o uso da expressão “bid fair“. Desigualdade no presente apenas, ou no futuro?

|01| Margaret, the other sister, was a good-humored, well-disposed girl; but as she had already imbibed a good deal of Marianne’s romance, without having much of her sense, she did not, at thirteen, bid fair to equal her sisters at a more advanced period of life.
|PT| Margaret, a outra irmã, era uma rapariga simpática e bem-humorada, mas estava ainda influenciada em grande parte pelo romantismo de Marianne, e não possuindo a sua sensatez, não parecia, aos treze anos de idade, poder a vir igualar-se com as irmãs daqui a alguns anos.
|BR| Margaret, a outra irmã, era uma jovem e bem-disposta, mas como absorvera uma boa parte do romantismo de Marianne, sem guardar muito de seu bom senso, não conseguia, aos treze anos, rivalizar com as irmãs que já estavam num período de vida mais avançado.

A idade de Marianne mencionada nos capítulos três, oito e dez, estão diferentes nas duas traduções (dezesseis e dezessete) e como para explicar foi preciso recorrer aos capítulos finais, farei um post “A idade de Marianne Dashwood” e colocarei na programação (abaixo).

A primeira visita de Willoughby, que abre o capítulo dez, na tradução portuguesa diz algo completamente diferente do original. Não consigo entender o que ocorreu com esta frase, é como se tivesse sido traduzida por outra pessoa, que não o tradutor.

|10| Marianne’s preserver, as Margaret, with more elegance than precision, styled Willoughby, called at the cottage early the next morning to make his personal enquiries.
|PT| Margaret como acompanhante de Marianne, com maior elegância que precisão, acalmou Willoughby, que viera cedo, na manhã seguinte à casa para saber pessoalmente como ela passava.
|BR| O guardião de Marianne, título que Margaret, com mais elegância que precisão, atribuíra a Willoughby, apareceu na manhã seguinte bem cedo à porta do chalé para saber pessoalmente do estado dela.

No capítulo dezessete, Elinor e Marianne conversam sobre dinheiro e casamento. A quantia que Marianne considera necessária para uma vida minimamente confortável é para Elinor uma vida de riqueza. Na tradução portuguesa ocorreu algo comum, pelo menos acontece comigo, que é a confusão quando menciona centena (hundred) e milhar (thousand). Neste caso a forma como foi colocado o primeiro valor, eighteen hundred (dezoito centos), levou erroneamente ao “cento e oitenta”. O certo é ”um mil e oitocentos”. E para que os valores ficassem equivalentes, acabou por traduzir two thuousand por “duzentos”!

|17| “About eighteen hundred or two thousand a year; not more than that.”
Elinor laughed. “Two thousand a year! One is my wealth! ” [...]
|PT| — Cerca de cento e oitenta a duzentas libras por ano; não mais do que isso.
Elinor riu-se:
Duzentas libras por ano! Cem eram a minha riqueza! [...]
|BR| — Cerca de mil e oitocentas a duas mil libras anuais; nada mais do que isso.
Elinor riu.
— Duas mil libras por ano! Com mil eu estaria rica!

Vocês devem ter percebido que ao fim e ao cabo tenho mais dúvidas do que explicações, mas creio que na troca de informações com os leitores boa parte delas serão esclarecidas.

  • Abreviações usadas nos textos: |1| Capítulo do livro — |PT| Tradução portuguesa — |BR| Tradução brasileira

PROGRAMAÇÃO

Capítulos 1 a 23 

Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – I”
“A idade de Marianne Dashwood”

Lendo Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – I”
O tradutor visto por uma leiga

Capítulos 23 a 36 

Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – II
O duelo de Razão e sentimento
O bom e velho Constância

Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (1)
Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (2)
Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – Parte II” (3)

Capítulos 37 a 50 

“Lendo Sense and Sensibility no Brasil 200 anos depois – II”
“Lendo Sense and Sensibility em Portugal 200 anos depois – III”

A idade de Marianne Dashwood

A idade de Marianne Dashwood despertou minha curiosidade ao ler as traduções* de Sense and Sensibility para o desafio do bicentenário da publicação do livro.

|3Remember, my love, that you are not seventeen.
|PT| — Lembra-te, minha querida, de que ainda não tens dezassete anos.
|BR| — Lembre-se, minha querida, de que você ainda não tem dezesseis anos.

No capítulo três, ainda em Norland Park, a senhora Dashwood diz para Marianne que ela é ainda muito nova para achar que jamais vai encontrar o companheiro ideal. Na tradução brasileira bastaria retirar o “não” e a frase ficaria perfeitamente correta: “Lembre-se, minha querida, de que você tem dezesseis anos.”

As Dashwoods ficaram por seis meses em Norland após a morte do pai. Minha dúvida: terá Marianne completado 17 anos antes de deixar Norland Park?

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|8“Perhaps,” said Elinor, “thirty-five and seventeen had better not have any thing to do with matrimony together.
|PT| — Diz antes — disse Elinor — que trinta e cinco anos e dezassete anos é preferível nada terem em comum com um casamento
|BR| — Talvez — disse Elinor — trinta e cincodezesseis nada tenham a ver  em comum com o casamento.

Pela afirmação de Elinor, no oitavo capítulo, parece que Marianne já completara 17 anos e as insinuações de casamento feitas pela sra. Jennings a incomodavan por demais. E assim sendo a tradução brasileira não teria motivos por manter 16 anos.

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|10Marianne began now to perceive that the desperation which had seized her at sixteen and a half, of ever seeing a man who could satisfy her ideas of perfection, had been rash and unjustifiable.
|PT| Marianne começava a perceber que o desespero, que a atingira aos dezasseis anos e meio, por pensar que nunca veria o homem que satisfizesse as suas noções de perfeição, fora apressado e injustificado.
|BR| Marianne começou a perceber que o desespero que dela se havia apossado, entre os dezesseis e os dezessete anos, quanto à possibilidade de encontrar na vida um homem capaz de corresponder ao seu ideal de perfeição era algo apressado e injustificável.

No capítulo nove, Marianne conhece Willoghby e no capítulo seguinte recorda seu tempo em Norland, quando tinha ainda 16 anos. Neste ponto fica claro que Marianne já estava com 17 anos quando encontrou Willoughby.

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|49| A three weeks’ residence at Delaford, where, in his evening hours at least, he had little to do but to calculate the disproportion between thirty-six and seventeen, brought him to Barton in a temper of mind which needed all the improvement in Marianne’s looks, all the kindness of her welcome, and all the encouragement of her mother’s language, to make it cheerful.
|PT| Uma estada de três semanas em Delaford onde, pelo menos durante os serões, pouco mais tinha a fazer do que calcular a despreocupação[¹] entre trinta e seis e dezassete, trouxe-o para Barton com uma disposição com uma disposição que bem necessitava de todo o benefício do olhar de Marianne, de toda a amabilidade das suas boas-vindas e de todo o encorajamento das palavras de sua mãe para o tornar alegre.
[¹] aqui a única palavra que faz sentido é desproporção.
|BR| Após ter permanecido três semanas em Delaford, onde, pelo menos à noite, pouco tinha a fazer senão calcular a desproporção entre os trinta e seis e os dezessete anos, o coronel retornou a Barton num estado de espírito tal que necessitou de todos os incentivos do olhar de Marianne, de toda gentileza de sua recepção, e de todo o estímulo das palavras de sua mãe para torná-lo alegre.

No capítulo 49, o Coronel Brandon começa a frequentar o chalé de Barton e diferença de idade entre ele e Marianne continua a atormentar seus pensamentos. A surpresa fica por conta da comparação: 36 e 17 anos. Se levarmos em conta as datas originais dos parágrafos anteriores, a comparação correta seria entre 35 e 17, ou então entre 36 e 18.

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|50| She [Marianne] was born to overcome an affection formed so late in life as at seventeen, and with no sentiment superior to strong esteem and lively friendship, voluntarily to give her hand to another! — and that other, a man who had suffered no less than herself under the event of a former attachment, whom, two years before, she had considered too old to be married, [...]
[...] she found herself at nineteen, submitting to new attachments, entering on new duties, placed in a new home, a wife, the mistress of a family, and the patroness of a village.
|PT| Nascera [Marianne] para vencer uma afeição que aparecera tão tarde na sua vida, aos dezassete anos, e para dar a sua mão a outro, pelo qual não sentia nada superior à forte estima e grande amizade!… E esse outro era um homem que não sofrera menos que ela por causa de uma afeição anterior, que dois anos antes ela considerara velho demais para casar [...] encontrou-se aos dezanove anos submetendo-se a novos afectos, iniciando novos deveres, instalada numa nova casa; era uma esposa, a senhora de uma família e a senhora de uma aldeia.
|BR| Nascera [Marianne] para superar uma afeição que aparecera em sua vida já aos dezessete anos, e, sem a ajuda do outro sentimento senão a da forte estima e uma viva amizade, voluntariamente dar a mão a outro!… e este outro era um homem que havia sofrido não menos que ela por causa de uma afeição anterior, e a quem, dois anos antes, ela havia considerado velho demais para casar-se…
[...] encontrou-se, aos dezenove anos, inclinada a novos afetos, encarregada em novos deveres, colocada num novo lar para ser a esposa, a mãe de uma família e a senhora de um padroado.

Que conheceu Willoughby aos dezessete anos e casou-se ao dezenove com o Coronel Brandon, não há dúvidas. Mesmo assim me pergunto: qual a idade do coronel quando se casou, 37 ou 38?

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  • * Sen­si­bi­li­dade e Bom Senso, edi­ção Europa-América na tra­du­ção de Maria Luísa Fer­reira da Costa e Razão e sen­ti­mento, edi­ção Nova Fron­teira na tra­du­ção de Ivo Bar­roso.
  • “A Calendar For Sense and Sensibility” Precioso documento de autoria de Ellen Moody, publicado em 2000 no Philological Quarterly, 79.

A publicação de Sense and Sensibility – Parte 2

Na primeira parte deste artigo escrevi sobre a única carta na qual Jane Austen menciona Sense and Sensibility antes de sua publicação. Ela fala a respeito das correções que fez em duas páginas e particularmente no capítulo 9 sobre na primeira aparição do personagem Willoughby.

Nesta segunda e última parte falarei sobre data de publicação de Sense and Sensibility.

Antes de mais nada é preciso esclarecer que a data de publicação de qualquer livro pode vir impressa de várias maneiras, sem contar os livros que não tem essa informação, como é o caso deste exemplar. E mais ainda, o livro pode ter sido impresso numa data, mas a que permanecerá como data de publicação será a determinada pela editora, impressa no frontispício, colofão ou página de créditos, como podemos ver nas imagens abaixo.

A primeira edição de Sense and Sensibility, tem apenas o ano impresso no frontispício assim como a edição da Folio Society de 1958. A tradução de Razão e sentimento por Dinah Silveira de Queiroz em 1944 e a de Ivo Barroso em 1982, trazem o mês e o ano no colofão.

As primeiras datas que tomei conhecimento foram nos livros, Jane Austen Facts and Problems (1926) e Northanger Abbey, Lady Susan, The Watsons, Sanditon (1998). Ambas mencionam o mês de novembro. No ano passado descobri uma edição online de Cambridge onde consta, na cronologia, uma data exata: 30 de novembro. Escrevi dois post sobre o assunto: ”Imagens de Sense and Sensibility nos 199 anos” e ”Sense and Sensibility, October or November?; este último no Jane Austen Today para ver se algum leitor de língua inglesa poderia ter mais alguma informação. Não obtive sucesso. (imagens abaixo)

Quando iniciei a leitura comparada das traduções para o bicentenário de Sense and Sensibility escolhi o original da Barnes & Noble, (que eu nunca havia aberto) e que me surpreendeu com uma ótima introdução de Laura Engel. E mais ainda com o quinto parágrafo, (imagem abaixo) onde lê-se que a primeira publicidade de Sense and Sensibility apareceu no Morning Chronicle em 31 de outubro de 1811.

De fato o livro já deveria estar impresso quando foi anunciado e só lamento não ter encontrado uma imagem que fosse do jornal, nessa data. Com esta informação deduzi que edição da Cambridge [¹] possivelmente optou por uma data de publicidade em outubro como sendo a da publicação, diferente de Oxford que preferiu novembro.

[¹] Note-se que a data da edição de Cambridge é 30 de outubro e a edição do Morning Chronicle é de 31 de outubro. Terá sido outro jornal? Ou as datas estarão errada em um dos textos?

A publicação de Sense and Sensibility – Parte 1

Em 1811 Jane Austen estava com 35 anos e finalmente seu primeiro livro seria publicado. Imagino a alegria e a apreensão de Jane, nesse início de ano, conferindo as provas e acertando os detalhes pedidos por seu editor, Thomas Egerton.

Jane Austen referiu-se a Sense and Sensibility – Razão e sentimento ou Razão e sensibilidade – em várias cartas, mas somente uma delas foi antes da publicação: a carta endereçada à irmã, Cassandra, em 25 de abril de 1811. Transcrevo abaixo apenas o trecho que se refere ao livro.

No indeed, I am never too busy to think of S&S [¹]. I can no more forget it, than a mother can forget her suckling child; & I am much obliged to you for your enquiries. I have had two sheets to correct, but the last only brings us to W.s [²] first appearance. Mrs. K [³] regrets in the most flattering manner that she must wait till May, but I have scarcely a hope of its being out in June. – Henry does not neglect it; he has hurried the Printer, & says he will see him again today. – It will not stand still during his absence, it will be sent to Eliza. – The Incomes remain as they were, but I will get them altered if I can. – I am very much gratified by Mrs. K.s interest in it; & whatever may be the event of it as to my credit with her, sincerely wish her curiosity could be satisfied sooner than is now probable. I think she will like my Elinor, but cannot build on anything else.
(Jane Austen’s Letters, Deidre Le Faye)

Claro que não, eu nunca estou ocupada demais para pensar em S&S [¹]. Não posso mais esquecê-lo, do mesmo modo que uma mãe não poderia esquecer de amamentar seu filho; e sou muito grata a você por seus questionamentos. Tive de corrigir duas folhas, mas apenas a última trata da primeira aparição de W. [²]. A sra. K [³] lamenta, e da forma mais lisonjeira, que ela tenha de esperar até maio, mas tenho poucas esperanças de que o livro seja publicado em junho. – Henry não descuida desse trabalho; ele tem apressado o impressor e diz que voltará a vê-lo hoje. – O texto não ficará parado durante sua ausência, e será enviado para Eliza. – Os rendimentos ficam como estavam, mas vou tentar alterá-los. – Sou muito grata à sra. K. por seu interesse no livro; e qualquer que seja o meu crédito com ela, desejo sinceramente que sua curiosidade possa ser satisfeita mais rápido do que agora é provável. Acho que ela gostará de minha Elinor, mas não posso especular sobre o que irá acontecer.
(trad. Rubens Enderle)

[¹] Sense and Sensibility
[²] Mrs. K. – senhora Knight, que adotou Edward, irmão de Jane Austen
[³] W.s – Willoughby

Alguns detalhes na carta me chamaram a atenção. O primeiro deles foi o agradecimento a irmã pelos questionamentos (dúvidas). Nesta frase podemos imaginar a influência de Cassandra no processo de revisão e mesmo elaboração dos livros de Jane Austen.

O empenho do irmão na publicação de Sense and Sensibility mostra que desde o primeiro livro Henry Austen participou ativamente de sua vida literária de sua irmã. O que não quer dizer que ela não tomasse parte no processo, como por exemplo, a tentativa de melhorar os rendimentos. Será que conseguiu?

Outro detalhe é a primeira menção a Willoughby que dá-se nas duas primeiras frases (abaixo), no capítulo 9:

A gentleman carrying a gun, with two pointers playing round him, was passing up the hill and within a few yards of Marianne, when her accident happened. He put down his gun and ran to her assistance. [...] The gentleman offered his services; and perceiving that her modesty declined what her situation rendered necessary, took her up in his arms without farther delay, and carried her down the hill.

Um jovem, que trazia uma espingarda de caça e estava acompanhado por dois cães que brincavam em redor dele, passava pela encosta exatamente a poucos metros de Marianne, quando o acidente aconteceu. Pousou no chão a espingarda em correu em seu auxílio. [...]  O senhor ofereceu-lhe seus préstimos, e percebendo que o recato da moça a levava a recusar o que a situação tornava necessário, tomou-a nos braços sem maiores delongas e carregou-a pela encosta abaixo.
(trad. Ivo Barroso)

Elinor and her mother rose up in amazement at their entrance, and while the eyes of both were fixed on him with an evident wonder and a secret admiration which equally sprung from his appearance, he apologized for his intrusion by relating its cause, in a manner so frank and so graceful that his person, which was uncommonly handsome, received additional charms from his voice and expression.

Elinor e a mãe ergueram-se espantadas à entrada deles, e enquanto os olhos de ambas estavam fixados no homem com evidente surpresa e secreta admiração, que provinham igualmente de sua aparência, ele desculpou-se por sua intromissão, explicando-lhes a causa de maneira tão franca e graciaosa, que sua figura, invulgarmente atraente, ficou acrescida dos encantos de sua voz e expressão.
(trad. Ivo Barroso)

Eis Willoughby, cantado em prosa e imagem!

Receio que as modificações que Jane Austen fez na primeira aparição do rapaz nos levam hoje, duzentos anos depois, a simpatizar com este sacripanta!